Gilberto Dimenstein
pensata
05/04/2005
Quem não tem e-mail é sub-cidadão
Pesquisa Datafolha informa que, neste ano, cerca de 25 milhões de brasileiros acima de 16 anos já acessam a internet. Não é pouca coisa, levando em conta que a população brasileira é de 180 milhões de habitantes, dos quais uma expressiva parcela é de pobres, analfabetos ou semi-analfabetos.
A linha da exclusão social pode ser medida também pelos com ou sem-mail. Isso porque ter ou não acesso à Internet define a capacidade de o indivíduo protestar ou se posicionar diretamente com o poder público e privado. É um jeito de chegar direto, sem intermediários, ao deputado ou senador, por exemplo.
Por isso, um dos atentados contra a cidadania brasileira é, até agora, não terem usado um único dos R$ 4 bilhões arrecadados dos usuários das telecomunicações para promover inclusão digital. É um absurdo nos mais diferentes sentidos. Abuso pela mentira pública (pegar um dinheiro e não usar); abuso porque educação deveria ser a prioridade das prioridades no país.
Coluna originalmente publicada na Folha Online, na editoria Pensata.
urbanidade
06/04/2005
Escola para empresários
Paulo Cunha é um dos empresários mais bem-sucedidos do Brasil. Filho de um militar e de uma professora primária, cursou escola pública, formou-se engenheiro e, atualmente, é proprietário de empresas cujo faturamento anual chega a R$ 4,8 bilhões. É obrigado a decidir sobre assuntos que envolvem de comércio exterior a projetos de infra-estrutura e inovações tecnológicas petroquímicas. Apesar do sucesso na gerência de grandes negócios, sente-se inseguro ao receber lições de uma pequena escola pública em Sapopemba, na zona leste de São Paulo. "Não sei as respostas."
Presidente do Grupo Ultra, Paulo Cunha integra uma equipe de 20 empresários que se propuseram a dar idéias para melhorar a gestão do ensino municipal em São Paulo. Cada empresário ficou responsável pelo diagnóstico de uma escola. Há um mês, Paulo Cunha analisa o funcionamento de uma unidade em Sapopemba.
Com seu olhar de executivo, ele encara a escola como uma linha de produção e procura entender cada etapa do processo de aprendizado. Vai, aos poucos, vendo como as falhas, com o tempo, se agigantam. "O produto final é um desastre." Desastre significa que os alunos desistem de aprender.
Reconhece que a diretora e as professoras são esforçadas e até preparadas, mas, segundo ele, vítimas de um esquema ineficiente. De acordo com as suas contas, descontando os recreios, cada aluno da rede municipal, onde existem três turnos, fica no máximo duas horas e meia em sala de aula. Além disso, são poucos os pais que se envolvem no aprendizado dos filhos. A maioria deles não ajuda na lição de casa nem, muitos menos, freqüenta a escola. Os alunos, despreparados, mudam de série, muitas vezes sem merecer e sem reforços para que recuperem o que deveriam saber. O empresário diz que não há premiação nem para o aluno empenhado nem para a professora dedicada. "Isso não foi feito para dar certo."
Para o Grupo Ultra, não seria tão difícil ajudar especificamente aqueles estudantes de Sapopemba. "A questão não é encontrar uma solução isolada, mas ajudar a gestão de toda a rede."
Paulo Cunha admite que seu conhecimento de educação pública está defasado. Afinal, ele é de um tempo que hoje parece exótico: o tempo em que um menino podia estudar numa escola pública e virar um dos maiores empresários do país.
Coluna originalmente publicada na Folha de S. Paulo, na editoria Cotidiano.




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